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A História dos Quadrinhos de Super-Heróis
Por Jamie Coville

Antes dos Super-Heróis

Antes dos super-heróis surgirem, havia os quadrinhos de humor. Eles eram reimpressões das tiras em quadrinhos dos jornais diários, muito parecidas com as de Garfield e Calvin que lemos atualmente. A primeira história em quadrinhos americana surgiu há mais de 100 anos! Em 1896, a tira The Yellow Kid (O Menino Amarelo) foi publicada no jornal The World num caderno especial colorido. Depois, a Dell Publishing lançou a primeira edição mensal de The Funnies, em 1910. Grande, em formato tablóide, a publicação era distribuída nas bancas junto com os jornais, parecendo-se com uma revista pulp (publicação barata que editava basicamente contos policiais e de aventura).

Mas só em 1933 é que foi realmente lançada a primeira "revista em quadrinhos". Seu nome era Funnies on Parade e tinha o mesmo formato, 17 x 25,8 cm, que os quadrinhos americanos mantêm até hoje. Foram impressas 10.000 cópias, distribuídas de graça com cupons para produtos da Proctor & Gamble. A idéia veio de George Janoski, Harry Wildenberg e um vendedor chamado M. C. Gaines. Eles tinham um contrato com a Agência McNaught e McClure para reimprimir algumas de suas tiras. M. C. Gaines percebeu o sucesso que eram os quadrinhos e sugeriru reuni-las numa revista.

Famous Funnies: a Carnival of Comics foi a segunda revista em quadrinhos de M. C. Gaines. Também impressa em 1933, ela tinha 64 páginas e custava 10 centavos. Foi o primeiro gibi vendido ao público, distribuído apenas em cadeias de lojas de departamentos. M. C. Gaines e a Gráfica Eastern Color trabalharam juntos em sua criação e conseguiram que George Delacorte, da Dell Publishing, publicasse a revista. Depois da primeira edição malsucedida,cancelou a revista, mas a Gráfica Eastern & Color decidiu tocar o projeto por conta própria e conseguiu distribuição em bancas de jornais através da American News Company.

Em maio de 1934 (a data de capa era julho), outra edição de Famous Funnies apareceu nas bancas. A cada quatro páginas, ela trazia um personagem diferente, saídos das tiras de jornais. Depois dessa edição, a revista passou a ser produzida bimestralmente e só depois de vários números é que a Eastern Color conseguiu algum lucro.

Muitas das histórias apresentavam heróis comuns lutando contra o crime, tais como Dick Tracy e O Sombra. Mas apesar das engenhocas fantásticas que eles usavam, ainda não tinham superpoderes. Em fevereiro de 1935 foi lançada New Fun Comics. Seu criador, o Major Malcolm Wheeler-Nicholson, se recusou a pagar o preço que os jornais cobravam pela republicação de suas velhas tiras de quadrinhos. Ele então conseguiu material novo, que não estava sendo publicado nos jornais, e abriu sua própria editora, a National Allied Publications Inc., que lançou o título num formato muito maior, de tablóide, com 25,4 x 38,1 cm.

New Fun foi a primeira revista em quadrinhos que a companhia, mais tarde chamada DC, publicou e também foi a primeira a trazer propaganda. Na sexta edição, a New Fun passou a ter 64 páginas e publicou o primeiro trabalho de uma dupla que viria a ser muito importante: Jerry Siegel e Joe Shuster, os pais do Super-Homem. Eles criaram um personagem conhecido como Dr. Oculto, que havia tido uma aparição anterior sob o nome de Dr. Místico em The Comic Magazine, lançado em 1936.

Foi nessa revista, aliás, que o Fantasma apareceu pela primeira vez. Sua estréia ocorreu em 17 de fevereiro de 1936 e ele foi o primeiro herói uniformizado. Criado por Lee Falk, o Fantasma era o tipo de herói que, mesmo sendo um homem normal, enfrentava o crime de forma corajosa, com proezas que desafiavam a morte. Muitos dos heróis do futuro seguiriam o seu exemplo. Também em 1936, em Funny Pages # 06, apareceria O Relógio, um detetive mascarado. Foi a primeira vez que um personagem usou uma máscara para esconder seu rosto. Mais tarde, a maioria dos heróis e heroínas passaria a usar máscaras para esconder suas verdadeiras identidades.

Em março de 1937, foi lançada Detective Comics # 1, que é considerada a primeira revista em quadrinhos da DC. Essa foi a primeira produção das duas companhias que no futuro iriam formar a DC. O Major Malcolm Wheeler não estava lucrando muito com seus quadrinhos, ele se juntou a seu distribuidor, Harry Donenfeld, para produzir esta revista. No ano seguinte, Donenfeld comprou as revistas de Wheeler e se tornou o único dono. Detective Comics é a revista em quadrinhos de maior duração já existente. Isso graças a um personagem que viria a tomar conta dela algum tempo depois.

A Era de Ouro dos Super-Heróis

Em junho de 1938 foi lançada Action Comics # 1, onde aparecia um homem vestido de azul e vermelho levantando um carro acima de sua cabeça! Era o Super-Homem, o primeiro personagem de quadrinhos que possuía poderes superiores aos de um homem normal. É claro que Flash Gordon e O Sombra eram muito legais, mas não conseguiam levantar um carro e muito menos jogá-lo sobre alguém! Também não podiam deter balas de revólver no peito, correr mais rápido do que uma trem ou saltar mais alto que um prédio. Para dizer o mínimo, Super-Homem era um nome mais do que apropriado.

Quando Siegel e Shuster eram mais jovens, eles já haviam tentado vender a idéia do personagem para jornais e revistas em quadrinhos. Suas idéias foram rejeitadas tantas vezes que um dia Joe Shuster rasgou seus desenhos do Super-Homem e afirmou que talvez um dia ele refizesse o personagem da forma certa. Hoje, o Homem de Aço é uma das 10 "pessoas" mais reconhecidas de nosso planeta. Ele já apareceu em vários filmes, desenhos animados, séries de televisão e até em peças de teatro.

Detective Comics # 27 chegou às as bancas em maio de 1939, e nela vimos a primeira aparição de Batman. Enquanto o Super-Homem era puro e honesto, Batman era sombrio e durão. Nesta revista, o vilão cai num tanque de ácido ao final da história e morre. Sem mostrar nenhum remorso por ter causado sua morte, o herói comenta: "Um fim apropriado para alguém de sua laia." O Homem-Morcego foi criado por Bob Kane e desde então nunca deixou de ser publicado. Na época em que os quadrinhos de super-heróis não vendiam tanto, ele sobreviveu graças às suas habilidades como detetive.

A popularidade de Batman provavelmente advém do fato de ele ser um meio-termo entre os dois tipos de heróis. Embora não possua superpoder, o Homem-Morcego tem intelecto, uniforme e vários apetrechos que o deixam em igualdade de condições com qualquer superser. Assim como o Super-Homem, Batman já apareceu tanto no cinema quanto na televisão várias vezes, em séries, filmes e desenhos animados.

Também em maio de 1939 saiu a Wonder Comics # 01. O herói deste título se chamava Wonderman (nenhuma relação com o personagem da Marvel chamado de Magnum no Brasil) e seus poderes eram praticamente idênticos aos do Super-Homem. Isso deixou a DC furiosa o suficiente para que movesse uma ação de plágio contra o editor, Victor Fox. O caso foi para os tribunais e o juiz deu ganho de causa à DC.

No verão de 1939, o Super-Homem continuava a fazer sucesso. Ele foi o primeiro herói a ter uma revista totalmente dedicada às suas aventuras. Até então, todas apresentavam vários personagens e histórias. Devido ao sucesso de Action Comics, outros heeróis tiveram a chance de ganhar suas próprias revistas. No mesmo ano, foi publicada a Motion Pictures Funnies Weekly, na qual apareceu o primeiro e mais duradouro de todos os personagens da Marvel Comics: Namor, o Príncipe Submarino, que surgiu em uma história em preto e branco, de oito páginas, no fim da revista. Esta mesma história foi depois ampliada e republicada em Marvel Comics # 01. A idéia era entregar gratuitamente a Motion Pictures nos cinemas da costa leste americana, mas a maioria das cadeias de cinemas recusou a revista.

Meses depois, em outubro de 1939, foi lançada a Marvel Comics # 01. Um grupo de criadores de super-heróis, veteranos da Funnies Inc., contataram o editor Martin Goodman e lhe propuseram uma revista em quadrinhos totalmente pronta e finalizada todos os meses, em troca de uma taxa por seus serviços. Neste grupo estava Bill Everett, o criador de Namor. Outros heróis desta revista eram o Tocha Humana, criado por Carl Burgos; Kazar; o Anjo e o Cavaleiro Mascarado (uma cópia do Cavaleiro Solitário). Esta companhia teve três nomes diferentes: o primeiro foi Timely Comics; o segundo, Atlas; e o terceiro e atual, que é Marvel Comics.

Na década de 60, o Tocha Humana foi reformulado para ser o membro adolescente do Quarteto Fantástico e sua versão original só foi resgatada nos anos 80. O Anjo foi reformulado como um dos membros dos X-Men, e Kazar ainda sobrevive, tendo recentemente recuperado sua própria revista nos EUA.

O Shield fez sua primeira aparição em Pep Comics # 01 em janeiro de 1940, e trata-se do primeiro herói patriótico americano. Com seu uniforme coberto de estrelas e sua luta pela América, inspirou vários imitadores, entre eles o Capitão América. Este personagem, junto com vários outros da MJL Magazines comprados pela DC Comics nos anos 80 e, em 1991, eles apareceram em novas aventuras publicadas sob o selo Impact Comics.

Em fevereiro de 1940, em More Fun # 52, a DC cometeu um erro ao criar um herói poderoso demais: o Espectro, um policial morto que, depois de falar com Deus, é mandado de volta à Terra como um fantasma. Possuindo poderes quase ilimitados, ele podia transformar todos os criminosos em cinzas. Mas esse personagem não conseguiu grande sucesso por ser muito frio, mal humorado e invencível demais (as balas passavam através de seu corpo e ele podia atravessar paredes). A despeito de seu fracasso inicial, a DC relançou O Espectro três vezes e hoje ele tem uma série regular.

No mesmo mês, foi publicada a Whiz Comics # 02, trazendo um personagem que também daria dores de cabeça à DC. Seu nome era Capitão Marvel. Sobre esta revista, um fato digno de nota é que a Thrill Comics # 01 (um gibi promocional em formato pequeno) tinha um personagem chamado Capitão Trovão, mas logo descobriu-se que já havia outro super-herói com esse nome, e ele foi rebatizado de Capitão Marvel. Pensaram em mudar a Thrill Comics para Flash Comics mas alguns dias antes do seu lançamento a DC publicou a sua própria Flash Comics, estrelada pelo Flash e o Lanterna Verde.

O primeiro parceiro de um super-herói apareceu em abril de 1940. Seu nome era Robin, o Menino-Prodígio, e surgiu em Detective Comics # 38. Batman e Robin seriam mais conhecidos nos quadrinhos como a Dupla Dinâmica. Robin foi importante para a HQ por ser um herói com o qual os leitores mais novos podiam se identificar. Devido à sua popularidade, outros heróis também ganharam parceiros adolescentes. Três diferentes personagens já vestiram o uniforme de Robin: Dick Grayson, Jason Todd (sobre o qual falaremos mais adiante) e o terceiro e atual, Timothy Drake.

No inverno de 1940 foi formada a primeira equipe de super-heróis. Ela se chamava Sociedade da Justiça da América e apareceu na All Star Comics # 03. Os membros originais incluíam: Flash, Lanterna Verde, Espectro, Gavião Negro, Dr. Destino, Homem Hora, Sandman, Átomo e Johnny Trovoada. Todos estes personagens foram bem-sucedidos em seus próprios títulos, e os leitores responderam com empolgação ainda maior quando eles se juntaram.

Em 1941, foi a vez da Mulher-Maravilha estrear na All Star Comics # 08. Ela começou como secretária da Sociedade da Justiça, mas logo se tornou a primeira grande super-heroína a se igualar ao Super-Homem e Batman. Além de poder lutar com os dois em base de igualdade, sua revista veio a ser publicada por tanto tempo quanto as deles. Quando as publicações com super-heróis entraram em baixa, as vendas da revista da Mulher-Maravilha, assim como do Super-Homem e Batman, se mantiveram fortes.

O Capitão América apareceu pela primeira vez em março de 1941, e a forma como surgiu foi tão interessante quanto a origem do próprio personagem. Captain America # 01 trouxe sua primeira aparição, sendo que ele nunca havia sido testado em qualquer outra revista antes. Isso nunca tinha acontecido até então e as editoras não produzir um título de quadrinhos se não tivessem certeza de que o personagem em questão garantiria as vendas da revista.

Foi o que fizeram com o Super-Homem na Action Comics # 01, um ano antes dele ganhar seu próprio título. Mas o editor da Timely Comics, Martin Goodman, viu os rascunhos do Capitão América feitos por Joe Simon e imediatamente percebeu que ele seria bem recebido pelos leitores. Assim, decidiu dar ao herói sua própria revista logo de cara e foi bem-sucedido.

O Capitão America não era como o Super-Homem, que falava de "Verdade e Justiça". O Homem de Aço era um alienígena vindo do espaço, enquanto o Capitão era um americano "de verdade", e enfrentou os nazistas muito antes dos Estados Unidos entrarem na Segunda Guerra Mundial. Apesar de já existirem outros heróis patrióticos nos quadrinhos, o Capitão América foi o primeiro a ter sucesso com os leitores.

Ainda em 1941 foi publicada a Pep Comics # 22, mas sua grande atração não estava entre os heróis da capa, e sim numa história secundária, sobre um adolescente chamado Archie Andrews, envolvido em um triângulo amoroso. Ele se tornou o maior patrimônio desta editora, garantindo seu sucesso até os dias de hoje. Archie usava como modelo o personagem do cinema Andy Hardy interpretado por Mickey Rooney. Por volta de 1943, sua editora, chamada MJL Magazines, mudou de nome para Archie Comics. Depois da Segunda Guerra Mundial, os quadrinhos de super-heróis começaram a perder espaço, não porque as crianças não gostassem deles, mas porque outras pessoas não gostavam.

Dr. Fredric Wertham, o Vilão dos Quadrinhos

A "chegada" do Dr. Fredric Wertham foi a coisa mais assustadora que já aconteceu com as HQs. Ele era um psicólogo muito respeitado e achava que os quadrinhos faziam mal às crianças. Seus esforços para censurá-los causaram terrível e duradouro impacto, que ainda afeta os quadrinhos nos dias de hoje. Quando a popularidade dos quadrinhos atingiu o auge com o lançamento do Super-Homem, eles passaram a chamar a atenção da mídia. Eis um trecho do editorial do crítico literário Sterling North publicado em 8 de maio de 1940 no Chicago Daily News:

"Mal desenhado, mal escrito e mal impresso - um choque para os olhos e sistemas nervosos de nossas crianças - o efeito desses pesadelos em papel vagabundo é o mesmo que o de um estimulante violento. Os seus negros e vermelhos grosseiros acabam com o senso de cores natural das crianças; as suas injeções hipodérmicas de sexo e crime as deixa sem paciência para histórias melhores, mais calmas. Se quisermos evitar que a próxima geração seja ainda mais agressiva que aquela dos dias de hoje, os pais e professores de toda a América devem se unir para acabar com as revistas em quadrinhos."

Este tipo de ataque fez com que companhias como a DC (a maior editora daquela época) formassem seus próprios conselhos editoriais em 1941 para mostrar ao público que os quadrinhos estavam sendo mantidos dentro dos níveis de diversão de qualidade. Esses conselhos editoriais eram formados por psiquiatras, especialistas em bem estar infantil e alguns cidadãos famosos e respeitados. Os nomes dos membros dos conselho saíam impressos na capa interna de todas as revistas da DC. Esse procedimento ajudou a aliviar as críticas feitas aos quadrinhos, mas não por muito tempo.

Cinco anos depois, o Dr. Wertham montou uma clínica para pessoas pobres. Logo depois de abri-la, passou a se interessar pelos efeitos que os quadrinhos tinham nas crianças. Em 1948, o Dr. Wertham se declarou publicamente contra as HQs, numa entrevista intitulada "Horror no Berçário", publicada na Collier’s Magazine. Essa entrevista seria o início do estudo de sete anos feito pelo psicólogo sobre o efeito dos quadrinhos nas crianças. Na entrevista, ele declarou:

"Não vale a pena discutir a quantidade de ‘boas’ histórias em quadrinhos, mas o grande número daquelas que se passam por ‘boas’ merece ser minuciosamente investigado."

Algumas semanas depois o Dr Wertham foi a um simpósio em Nova York chamado "A Psicopatologia das Histórias em Quadrinhos". A reação do público às suas impressões foi imediata. Um mês depois, em abril, a revista Time trouxe um artigo sobre o Comissário de Polícia de Detroit, Harry S. Toy, que examinou todas as revistas em quadrinhos disponíveis em sua comunidade e afirmou que elas eram "carregadas de ensinamentos comunistas, sexo e discriminação racial". Em maio de 1948, ele apresentou um outro artigo na Saturday Review of Literature.

Henry E. Shultz discorreu da seguinte forma sobre as condições dos gibis na edição de dezembro de 1949 do Journal of Educational Society:

"Em cidades, comunidades e municípios de todo o país... os legisladores eram incitados a tomar alguma providência, e muitos deles fizeram o possível para apaziguar o ódio liberado. Leis e ordens, comitês de legislação, censores, de fato todos os dispositivos que poderiam atormentar e confundir os lojistas, distribuidores e editores de quadrinhos foram criados e sancionados - revistas foram banidas e, finalmente, para completar o clímax, a queima em massa de gibis era feita em público em várias comunidades."

Em 20 de dezembro de 1948 a revista Time relatou e publicou fotos dos residentes de Binghampton, Nova York, que, depois de recolherem revistas de casa em casa, as queimaram em público (sob os olhares de um bando de garotos).

Neste ano, alguns dos editores de revistas em quadrinhos formaram a Association of Comic Magazine Publishers (ACMP). Seu objetivo era estabelecer os parâmetros segundo os quais os quadrinhos deveriam ser publicados. Eles procederam desta forma esperando amenizar as críticas. A ACMP reuniu um conselho cujos membros deveriam aprovar qualquer revista antes de sua impressão. Mas as grandes companhias como a DC e a Dell tinham seus próprios conselhos internos, e não aderiram à ACMP. Além disso, muitos dos membros envolvidos não concordavam com os parâmetros de aprovação, e acabaram deixando a ACMP.

Algumas pessoas eram um pouco mais extremistas em suas opiniões a respeito do assunto. Em 1949, Gershon Legman escreveu um livro chamado Amor e Morte (Love and Death), no qual afirmava que os quadrinhos treinavam as crianças como animais, destruindo suas personalidades. Também dizia que as HQs distorcem a realidade e proporcionam imagens violentas das quais as crianças se "alimentavam". No mesmo ano, o governo canadense oficializou uma lei abrangente que procurava controlar os quadrinhos policiais (qualquer revista que tratasse de crimes, o que incluía as de super-heróis). Abaixo, segue uma reprodução desta lei da forma como ela é no atual Código Penal:

CORRUPÇÃO DA MORAL...

(1) É criminoso todo aquele que... (b) produzir, imprimir, publicar, vender ou tiver em sua posse revistas em quadrinhos policiais com o objetivo de publicação, distribuição ou circulação. ...

(7) Nesta seção, é considerado "quadrinho policial" qualquer revista, periódico ou livro que apresente visualmente: (a) a perpetração de crime, real ou fictício; ou (b) eventos ligados à perpetração de crime, real ou fictício, ocorrido antes ou depois de sua perpetração."

Em 1950, O Comitê de Pais de Cincinnati começou a graduar todas as revistas em quadrinhos de acordo com seus próprios critérios de arte e conteúdo. Suas avaliações eram publicadas anualmente na Parents Magazine.

O governo federal dos E.U.A. envolveu-se nessa rixa em 1950. Um comitê especial de senadores estava investigando o crime organizado e parte dessa investigação analisou os efeitos provenientes dos quadrinhos. Um dos juízes declarou ao comitê que havia tratado de casos em que os garotos haviam cometido crimes inspirados nos gibis. Culpar as revistas em quadrinhos pelos crimes que cometiam de repente se tornou uma saída fácil para os menores. Eles conquistavam a simpatia do público, pois eram os quadrinhos que os tinham "levado a fazer aquilo".

Apesar de já existir um grande número de pessoas que criticavam os quadrinhos, foi a publicação em 1954 do livro A Sedução dos Inocentes (Seduction of the Innocent), do Dr. Wertham, que causou o efeito mais devastador. Nele, o psicólogo afirmava que, em seus estudos com várias crianças, tinha descoberto que as HQs eram uma das maiores causas da delinqüência juvenil. Esta afirmação era na maior parte baseada na culpa por associação. A maioria das crianças lia quadrinhos naquela época, inclusive aquelas que se tornavam delinqüentes. Mas, de acordo com o Dr. Wertham, os quadrinhos é que faziam as crianças cometerem crimes.

Ainda segundo o Dr. Wertham, eles davam às crianças idéias erradas sobre as leis da física, pois o Super-Homem voava! Ele também acusava os quadrinhos de estabelecer e reforçar idéias homossexuais, uma vez que Robin era desenhado de pernas nuas, muito freqüentemente abertas, e era devotado exclusivamente ao Batman. Além disso, o Dr. Wertham dizia que a Mulher-Maravilha dava às meninas "idéias errôneas" do lugar que cabia às mulheres na sociedade.

A indústria dos quadrinhos e os que discordavam de Wertham reagiram. Alguns atacaram o estudo do psícologo salientando que ele só havia analisado delinqüentes juvenis, sem compará-los a outras crianças. Wertham respondeu que aqueles que não tinham se tornado marginais deviam estar ainda piores(!)

Na época, havia no mercado muitos quadrinhos de terror, que mostravam coisas de fato horripilantes. Mas o que o Dr. Wertham não admitia era que as crianças não liam estas revistas, e sim os adultos. Ao lutar na Segunda Guerra, vários soldados liam quadrinhos para levantar o moral e se distrair. Ao retornarem, mantiveram o hábito. Os quadrinhos de horror eram escritos principalmente para esse público. Hoje, essas mesmas histórias estão sendo reproduzidas na série de tevê Contos da Cripta (Tales from the Crypt).

As editoras se voltaram contra o livro do Dr. Wertham. Primeiro, um acordo para colocar A Sedução dos Inocentes na seleção do Clube do Livro do Mês foi abortado. No livro, o Dr. Wertham reproduzia as capas violentas e algumas ilustrações das revistas, mas a bibliografia que listava os responsáveis por esses quadrinhos foi eliminada depois da primeira edição. Não há detalhes que expliquem o porquê da medida, mas suspeita-se que as editoras pressionaram a Rinehart & CO, editora de Sedução, a se livrar da bibliografia.

O Comics Code Authority (Código de Censura dos Quadrinhos)

O livro A Sedução dos Inocentes provocou uma investigação por parte do senado americano sobre a relação dos quadrinhos com a delinqüência juvenil. O Dr. Wertham foi chamado a depor, assim como outros especialistas no assunto, representantes das principais editoras de quadrinhos, alguns de seus anunciantes, distribuidores e os representantes da Sociedade Nacional dos Cartunistas.

O Dr. Wertham acabou saindo vitorioso, já que tinha muita experiência em testemunhar diante de comitês governamentais. Alguns dos representantes das editoras de quadrinhos eram executivos que conheciam muito pouco do contexto editorial, , de forma que suas respostas pareciam vagas e evasivas.

A única exceção foi William Gaines, editor da E.C. (que publicava a maioria dos quadrinhos de horror). Gaines era um educador formado e foi capaz de responder a todas as perguntas claramente e defender seu ponto de vista muito bem. Os representantes da Sociedade Nacional de Cartunistas, Walt Kelly, Milton Caniff e Joe Musial se esforçaram para manter distância das revistas em quadrinhos, condenando-as de modo geral (traidores!).

O resultado dessas audiências foi o conselho que o senado deu às editoras de quadrinhos: "Um competente policiamento interno dentro da indústria poderia resolver muitos dos problemas".

Foi então que as editoras criaram a CMAA - Comic Magazine Association of America (Associação das Revistas em Quadrinhos da América) e com ela o CCA - Comics Code Authority (Código de Ética dos Quadrinhos), no dia 26 de outubro de 1954. Em 1955, o comitê do senado deu seu parecer final, afirmando que aprovava o CCA, e achava que ele representava "passos na direção certa".

Embora não endossasse totalmente as teorias do Dr. Wertham sobre o efeito dos quadrinhos nas crianças, pois seus estudos não eram feitos num "ambiente amplo", mas apenas com delinqüentes juvenis, o comitê concordou que poderiam ter um efeito não-saudável nas crianças que já eram emocional ou moralmente desequilibradas. Como não tinham certeza se as HQs tinham esse efeito, o comitê decidiu-se em favor da auto-regulamentação pelos próprios editores. O parecer final também emitiu um aviso: caso a auto-regulamentação não funcionasse, eles iriam abordar o problema novamente e fazer o necessário para "evitar que a juventude de nossa nação seja prejudicada pelos quadrinhos de horror e violência".

O CCA passou a colocar o seu selo em todas as revistas em quadrinhos que seguissem os seus parâmetros. O problema é que os quadrinhos de horror não tinham como segui-los. As lojas e bancas simplesmente não aceitavam os quadrinhos sem o selo. Isso fez com que algumas das editoras de horror saíssem do negócio, enquanto outras adaptaram-se, abandonando o tamanho tradicional e transformando seus títulos em magazines, sobre as quais o Código não exercia nenhuma autoridade. Mas, na sua maioria, aqueles que ainda faziam quadrinhos de horror amenizaram bastante suas publicações.

Hoje em dia, o CCA perdeu sua importância. No passado, seu selo era grande e fácil de ver, mas com o passar dos anos foi ficando cada vez menor, e agora os leitores têm que forçar os olhos para conseguir enxergá-lo. Se uma revista em quadrinhos não é aprovada pelos padrões do CCA, ela é publicada de qualquer forma. Geralmente encontra-se a mensagem "Leitura Recomendada para Adultos" na capa da revista para avisar aqueles que ainda se preocupam.

A Retomada do Gênero Super-herói

Em 1953, a Marvel tentou trazer os super-heróis de volta. Na Young Men # 24, os três maiores heróis da Marvel fizeram seu retorno. Capitão América, Tocha Humana e Príncipe Namor apareceram em histórias que explicavam o que estiveram fazendo desde a Segunda Guerra Mundial. O Capitão America era professor de História e Bucky, seu aluno. Mas, quando seu arquiinimigo, o Caveira Vermelha, reaparece, lutando junto aos comunistas, o Capitão América e seu fiel escudeiro voltam à ativa para deter seus planos malignos.

Já o Tocha Humana havia sido capturado por gângsteres e enterrado no deserto de Nevada. Quando os Estados Unidos começaram a testar suas bombas atômicas no local, a radiação o deixou mais poderoso. Ele se libertou e passou a procurar seu parceiro, Centelha, descobrindo que ele tinha sido vendido aos comunistas pelos gângsteres. Assim, o Tocha Humana teve que recapturar seu jovem parceiro e libertá-lo da lavagem cerebral feita pelos vermelhos.

Nada de mais havia acontecido ao Príncipe Namor depois da guerra. Ele havia voltado para o seu reino e vivia em paz no fundo do mar até que alguns navios da marinha americana começaram a desaparecer misteriosamente, levando as autoridades a suspeitar que os comunistas estivessem por trás disso também. O Príncipe Submarino foi chamado para investigar e descobriu que a causa do desaparecimento não eram os comunistas, mas os robôs do Planeta Vênus! Depois de derrotados, os robôs retornam para Vênus, prometendo nunca mais voltar para a Terra.

Infelizmente, a tentativa da Marvel de reviver os super-heróis não foi bem sucedida. Pouco depois, a DC também trouxe de volta os seus heróis e eles se tornaram um sucesso, dando início à Era de Prata dos quadrinhos.

A Era de Prata

Tudo começou com a revista Showcase # 04, estrelada pelo Flash, agora numa versão renovada de seu antecessor, Joel Ciclone. Criado por Julius Schwartz e Carmine Infantino, Flash ganhou sua própria revista, após algumas aparições na Showcase. Seu sucesso fez com que outros heróis da Era de Ouro voltassem, alguns deles também modificados. Resumindo, o Flash se tornou um herói em dois fronts:

- nas revistas em quadrinhos e para a indústria das HQs. Seu retorno trouxe a popularidade dos heróis de volta e modificou toda a indústria até os dias de hoje. Isso inclui novas revistas de super-heróis, séries de TV, filmes, etc.

É importante ressaltar que numa história secundária em Detective Comics # 225, de 1955, aparecia um alienígena chamado J’onn J’onzz. Ele ficou conhecido mais tarde como Ajax, o marciano, um herói de grande importância no universo DC dos dias de hoje.

Em 1958, outro fato de destaque aconteceu na revista Strange Worlds # 1, da Marvel Comics. Ela foi a primeira revista lançada por Stan Lee e Jack Kirby. Esses dois indivíduos, juntamente com outros artistas, começaram a criar super-heróis para a Marvel Comics e deram origem à chamada Era Marvel.

A Era Marvel

A Era Marvel começou em 1961, quando a editora começou a lançar novos super-heróis. A primeira revista a ser lançada foi Amazing Adventures # 01, que trazia um personagem chamado Dr. Droom (e não Doom, ou Destino). Ele não foi muito bem, mas a Marvel continuou lançando outros heróis mesmo assim. Mais tarde, o Dr. Droom foi renovado e trazido de volta como Dr. Druida.

A primeira revista da Marvel a trazer uma equipe de super-heróis foi Fantastic Four # 01, também lançada em 1961. Na DC, todos os personagens de uma equipe se davam bem e não tinham problemas entre si. Não era esse o caso aqui. Um dos membros do Quarteto Fantástico, Ben Grimm, também conhecido como o Coisa fazia jus ao nome, uma coisa, um monstro que assustava todos que olhassem para ele.

O Coisa não se dava bem com os outros membros da equipe. Constantemente ficava furioso e às vezes até brigava com seus colegas. Ben Grimm fez os quadrinhos parecerem reais, ele não era o super-herói contente e boa-praça que podia ser visto na DC. Outro personagem que teve um começo ligado ao terror foi o Hulk, outro monstro que virou herói.

Os quadrinhos do Quarteto eram corajosamente apelidados pela editora de "A Melhor Revista em Quadrinhos do Mundo". Um título audacioso, mas que era merecido. A revista trouxe muitas mudanças para a indústria dos quadrinhos. Uma delas foi permitir que os heróis se casassem. Em Fantastic Four Annual # 03 (1965), Reed Richards e Susan Storm se casaram. Foi uma renovação, pois antes o herói não podia nem mesmo beijar a mocinha. E foram além: três anos mais tarde, Reed e Sue tiveram um filho. Foi em Fantastic Four Annual # 06 (1968) que nasceu Franklin Richards.

O super-herói mais conhecido da Marvel apareceu pela primeira vez em Amazing Fantasy # 15: o Homem-Aranha. Assim como o Capitão Marvel antes dele, o Aranha era um jovem com quem a garotada podia se identificar. Na escola, Peter Parker era o típico CDF, com dificuldades para arranjar uma namorada e sempre importunado pelos valentões. Peter continuou sendo alguém com quem os leitores sentiam afinidade até mesmo enquanto crescia. Ele tinha um chefe chato chamado James Jonah Jameson e muitas vezes não conseguia pagar o aluguel.

Um herói muito diferente apareceu em Strange Tales # 110 (1963): o Dr. Estranho. Em vez de realizar seus feitiços não com uma varinha de condão, ele entrava em contato com outras dimensões. Embora os rituais de feitiçaria se parecessem com os das práticas existentes no ocultismo, Stan Lee diz que inventou tudo sem nunca pesquisar em livros de magia.

Stan Lee e Jack Kirby criaram mais de 90% dos super-heróis do universo Marvel e a maioria deles ainda existe atualmente. Eles também criaram equipes de super-heróis como Os Vingadores e o grupo de maior sucesso no momento, os X-Men. Outra inovação da dupla foi dar superpoderes aos vilões. Antes deles, os heróis geralmente lutavam contra alienígenas, cientistas loucos, robôs, ladrões, gângsteres e pessoas do futuro. Era muito raro que um vilão tivesse poderes como os dos heróis.

Os X-Men eram um grupo diferente. Não eram deuses de outros mundos ou cientistas afetados por um experimento que não deu certo. Eram pessoas comuns, mas que nasceram com uma ou mais habilidades extras. Porém, nem tudo era fácil para eles, já que esses mutantes eram temidos e odiados pela sociedade, criando paralelos com os conflitos raciais que ocorriam no país.

Mas a revista dos X-Men não foi a primeira a tratar desse assunto. O herói da DC chamado Aquaman também trazia uma mensagem contra o racismo, pois ele tinha sido maltratado quando criança apenas por ter o cabelo amarelo. Os Atlantes (um povo submarino) acreditavam que quem possuísse cabelo dessa cor era filho do demônio.

Durante a Era Marvel, a editora reviveu alguns dos seus heróis da Era de Ouro, enquanto outros foram renovados. Em Fantastic Four # 04, vimos o retorno de Namor e, em Avengers # 04 tivemos a volta do Capitão América original. Em X-Men # 01 encontramos uma versão diferente do Anjo e em Fantastic Four # 1, um novo Tocha Humana cruzava os céus.

Em 1966, em Fantastic Four # 52, surgiu o primeiro super-herói negro importante da Marvel, o Pantera Negra. Embora não tenha tido uma série de longa duração, ele deu início a uma leva de super-heróis negros, entre os quais se destacam, o Falcão; Luke Cage, o Herói de Aluguel; Raio Negro, da DC, e Spawn, da Image. O Pantera Negra teve sua própria revista entre 1977 e 1979 e foi membro dos Vingadores.

Em 1969, a primeira história solo do Dr. Destino (segundo dizem, ele foi a inspiração para Darth Vader) surgiu em Marvel Super-Heroes Presents # 20. Embora essa revista não seja considerada muito importante, ela foi seguida, seis anos mais tarde, pela primeira série estrelada por super-vilões. A Super Villain Team-Up, da Marvel, apresentou o Dr. Destino aliado a um vilão diferente em cada edição. A DC também seguiu esta onda com um dos inimigos de Batman, o Coringa. Nenhuma das revistas durou muito, mas aí nasceu a moda de valorizar os vilões, que perdura até hoje. Hoje temos histórias especiais com vilões em mini-série e até em séries regulares.

Durante os anos 70, a DC enfrentou problemas para vender suas revistas. Num evento conhecido hoje como A Implosão da DC, a editora cancelou vários de seus títulos. Mas ela conseguiu um feito espetacular: tirou Jack Kirby da Marvel. Ele criou uma revista chamada New Gods (Novos Deuses), totalmente nova e diferente das outras do universo DC. A revista apresentou alguns dos grandes heróis e vilões do universo DC que ainda estão sendo aproveitados nos dias atuais. Jack Kirby foi o primeiro profissional da área a conseguir um tratamento especial e abriu o caminho para que os artistas do futuro pudessem ter uma voz mais ativa na indústria dos quadrinhos.

Em 1970, a Marvel inovou novamente, trazendo Conan, o Bárbaro, criação de Robert E. Howard, para as HQs. A revista durou vinte anos e popularizou o personagem, inspirando até um filme com Arnold Schwarzenegger.

Foi em 1970, no número 76 da revista americana do Lanterna Verde & Arqueiro Verde, que os quadrinhos da editora se tornaram mais sérios. Nesta edição, os dois heróis falavam de problemas da vida real, como a indefinição entre o bem e o mal. Nessa história, o Lanterna Verde salvava um homem que estava sendo atacado por um garoto, mas as pessoas do bairro acabam atacando o herói por salvá-lo. O Arqueiro Verde intervinha explicava ao Lanterna que se tratava do dono de um velho prédio de apartamentos que queria despejar os moradores e construir um estacionamento no local. Os dois heróis trabalhavam juntos para encontrar uma maneira de derrotar legalmente o proprietário. No final, o Lanterna e o Arqueiro conseguiam uma caminhonete e saíam viajando pelo país para lidar com questões sociais controversas. Certa vez, uma edição dessa revista saiu sem o selo de aprovação do CCA por trazer uma história sobre o parceiro do Arqueiro, Ricardito, que havia se tornado um viciado em drogas. Mas esta não foi a primeira revista em quadrinhos convencional a abordar este tema.

Em 1971 a Marvel quebrou as regras e produziu uma história que não foi aprovada pelo Código de Censura. Mesmo assim, a história em questão apareceu nas edições 96 a 98 de Amazing Spider-Man, a revista do Homem-Aranha, e tratava dos males causados pelo uso de drogas. O CCA achava que essa questão deveria ser ignorada completamente. Só que, desta vez, o público estava do lado da Marvel. Depois desse caso, o CCA abrandou um pouco algumas de suas regras, permitindo que novas revistas de terror voltassem a aparecer. Os quadrinhos de terror mais conhecidos eram O Monstro do Pântano, da DC, e O Motoqueiro Fantasma e O Filho de Satã (mais tarde conhecido como Hellstorm), da Marvel. Esses personagens também eram super-heróis e eram usados nos quadrinhos convencionais para trazer um atrativo a mais.

Em 1973, a DC resolveu acrescentar novos heróis ao seu universo e incorporou os personagens comprados das editoras Fawcett e Quality Comics.

Ainda em 73, a revista Amazing Spider-Man # 121 chocou a todos. Nessa edição, ocorria a morte da namorada do Homem-Aranha, Gwen Stacy, assassinada pelo Duende Verde. Nunca antes os leitores tinham presenciado a morte de um personagem importante. Isso lembrou ao público que os vilões são realmente perigosos e loucos. Até então, os vilões nunca conseguiam cumprir os seus planos, pois o herói sempre aparecia e salvava a pátria. Dessa vez o herói chegou tarde demais.

Entre 73 e 74, um tipo diferente de herói passou a ser produzido pela Marvel, os anti-heróis. Os dois mais populares dessa espécie são Wolverine e Justiceiro. Wolverine era um homem selvagem e de passado enigmático, capaz de matar alguém sem motivo. Ele fez sua primeira aparição em Incredible Hulk # 181 e depois foi apresentado como um dos X-Men em 1975. A partir daí, a sua popularidade disparou.

A primeira aparição do Justiceiro foi em Amazing Spider-Man # 129. Ele apareceu em outras histórias do Homem-Aranha, mas na metade dos anos 80 ganhou revista própria. Esses anti-heróis eram populares por não terem os mesmos motivos e métodos de personagens como Super-Homem. Eles geralmente matavam (ou tentavam matar) os seus inimigos e em alguns aspectos de sua personalidade refletiam o que as pessoas normais pensavam mas não podiam fazer.

Em 1975, surgiram os Novos X-Men. Eles fizeram sua aparição em Giant Sized X-Men # 01. Como na série Jornada nas Estrelas, a nova equipe trazia heróis diferentes vindos do mundo todo. Wolverine era do Canadá; Colossus, da Rússia; Tempestade, do Quênia; Banshee, da Irlanda; Solaris, do Japão; Pássaro Trovejante, de uma reserva Apache; e Noturno da Alemanha.

Um ano depois, a Marvel e a DC fizeram o primeiro crossover entre seus super-heróis, apresentando uma batalha entre o Super-Homem e o Homem-Aranha. Graças ao sucesso dessa história, muitos outros encontros aconteceram desde então. Mas a Marvel e a DC já haviam feito uma parceria em outra revista antes dessa, O Mágico de OZ, de 1975.

Em 1977 foi lançado Cerebus # 1, produzida e publicada por Dave Sim, que apesar de ser independente das grandes editoras, vendeu bem. Essa revista abriu caminho para outros editores independentes lançarem novos materiais. Cerebus começou como uma paródia de Conan, o Bárbaro. Ele era um porco-da-terra cinzento que sempre carregava consigo uma espada. Não demorou muito para se envolver de forma mais complexa com as questões sociais e políticas de um mundo fictício. Em suas aventuras encontramos paródias de várias pessoas famosas e de personagens de quadrinhos. Outra coisa interessante sobre a série é que Dave Sim estabeleceu desde o início que ela iria terminar no número 300, com a morte de Cerebus. A revista também é conhecida como a mais falsificada até hoje.

Em dezembro de 1981, a Pacific Comics começou a publicar Captain Victory and the Galactic Rangers, desenhada por Jack Kirby. Essa é outra revista importante, pois foi a primeira vez que uma editora permitiu que os criadores mantivessem os direitos autorais sobre seus personagens.

Em 1984 saiu Teenage Mutant Ninja Turtles # 01, uma revista em preto e branco que se tornou um sucesso tremendo. Ela foi criada por Kevin Eastman e Peter Laird, numa noite em que tentavam inventar o mais absurdo e idiota super-herói ou equipe de super-heróis que pudessem imaginar. Depois de ficarem com os estômagos doendo de tanto rir quando viram o que tinham feito, mudaram algumas coisas e decidiram publicá-la. Pegaram algum dinheiro que tinham guardado, emprestaram mais um tanto de um tio e publicaram, em preto e branco e formato magazine, uma paródia aos heróis ninjas "sérios e durões" que faziam sucesso na época.

As Tartarugas Ninja se tornaram tão populares que ganharam um desenho animado na TV, mas o tom foi amenizado para o público infantil. Licenciadas, acabaram aparecendo em todo tipo de produto que se possa imaginar. A revista também deu início a uma explosão dos quadrinhos em preto e branco, tornando-se o quadrinho de super-heróis mais bem sucedido de todos os tempos entre os independentes.

Em 1985, a DC enfrentou um problema grave com seu universo ficcional. Em Flash # 123, de 1962, tanto o Flash da Era de Ouro quanto o da Era de Prata apareciam na mesma história. Foi o primeiro encontro entre heróis de épocas diferentes. Isto criou uma grande confusão, pois as histórias do Flash da Era de Prata mostravam o jovem Barry Allen lendo revistas em que o Flash da Era de Ouro era um personagem de HQ. Então, como eles puderam se encontrar? Daí nasceu a idéia de mundos paralelos, onde o Flash da Era de Ouro era uma pessoa de verdade numa outra Terra e, atravessando as dimensões, os dois poderiam aparecer ao mesmo tempo.

Essa segunda Terra, onde os heróis da Era de Ouro existiam, logo foi usada para trazer de volta os personagens de antes da reformulação, como o Lanterna Verde e outros. Ao mesmo tempo, em a DC trouxe heróis que existiriam em outras Terras, onde não tínhamos os heróis conhecidos. Com o tempo, tudo isso ficou muito confuso e, em 1985, a editora lançou a série Crise nas Infinitas Terras, que unificou todas as Terras paralelas e criou uma única onde todos existiriam. Para isso, a DC matou vários heróis, novos e velhos, incluindo o Flash da Era de Ouro, Barry Allen (provavelmente foi a vingança da DC por Barry ter começado a confusão toda!). O problema é que a editora decidiu começar do zero toda a sua cronologia, o que significava que os eventos em todas as revistas da DC anteriores àquele momento nunca aconteceram. Os escritores estavam começando do nada e, se quisessem que a história antiga tivesse relevância, teriam que recontá-la. Ter que começar do zero deixou furiosos vários profissionais e leitores, e criou uma nova confusão sobre o que realmente tinha ou não tinha acontecido no passado dos heróis. Consertar a continuidade e a história de seu universo foi uma grande idéia, mas a DC se atrapalhou.

Na década de 80 surgiu um novo estilo de quadrinhos de super-heróis, as histórias realistas. Este conceito foi abraçado primeiramente por Frank Miller quando assumiu a revista do Demolidor na Marvel, em 1979. Seu trabalho nesse e em outros títulos inspirou o realismo sombrio que lentamente se tornou mais popular nos anos seguintes. Mas este estilo só se consolidou em 1986, com a maior saga de Frank Miller: Batman: O Cavaleiro das Trevas. Esta história se passava no futuro e mostrava um Bruce Wayne velho, que deixava a aposentadoria vestindo o uniforme do Homem-Morcego pela última vez.

No mesmo ano, a DC criou uma mini-série chamada Watchmen. Nela, pessoas reais tinham superpoderes e esse fato exercia forte efeito no mundo. Os Watchmen eram um grupo de vigilantes que foram forçados pelo governo a interromper suas atividades devido a uma greve dos policiais. Pela primeira vez mostrou-se as mudanças que os super-heróis causariam a grandes eventos históricos e seus efeitos em nossa sociedade. A idéia era mostrar como os super-heróis afetariam as pessoas comuns no mundo real.

A Era do Chamariz

Também em 1986 aconteceu uma transação comercial que afetaria os quadrinhos até os dias de hoje. O dono da distribuidora Heroes World, proprietário da Marvel Comics, vendeu a editora a um empresário chamado Ron Perelman. Isso deu início a aquilo que pode ser chamado de A Era do Chamariz. Sob a nova administração, A Marvel iniciou uma agressiva campanha de marketing para vender mais revistas. Criou sagas enormes que se estendiam a todos os seus títulos (forçando os leitores a comprarem todos para ler a história completa). Outros chamarizes consistiam em capas com hologramas e desenhos fosforescentes, folders e outras idéias. Uma grande quantidade de itens promocionais foram oferecidos, heróis morriam por um curto período e depois eram trazidos de volta à vida, outros se tornaram vilões e vilões populares viraram mocinhos. Logo, todas as outras companhias começaram a fazer o mesmo. E, embora muitos fãs tenham se cansado desses truques, eles ainda são usados.

Em 1988, outra aventura de Batman entrou para a história dos quadrinhos, a saga Uma Morte na Família. Nessa série, o segundo Robin, Jason Todd, era mandado pelos ares graças a uma bomba armada pelo Coringa. Na época, os fãs foram convocados a telefonar e votar a favor ou contra a morte dele. A contagem final foi de 5343 a 5271 a favor. Mais tarde, um terceiro personagem (Timothy Drake) foi criado para ocupar o papel de Robin.

Em 1989, o filme Batman foi lançado e se tornou um grande sucesso. Ele ajudou a elevar as histórias em quadrinhos ao seu mais alto nível de popularidade desde a Era Marvel. E não foi apenas o filme que fez as HQs se tornarem populares novamente, mas também os velhos leitores. Colecionar quadrinhos geralmente era visto como uma atividade infantil. Os anos 80 mudaram isso. Os quadrinhos se tornaram mais adultos, começaram a lidar com questões mais sérias embora tentassem se manter divertidos e menos pedantes. Isso resultou numa mudança na faixa etária dos colecionadores. Aqueles que liam quadrinhos quando garotos continuaram ou voltaram a ler. As revistas atuais não são apenas para crianças (e alguns não são nem mesmo para elas), a média dos leitores atualmente transita entre 15 e 23 anos de idade e cerca de 30% dos consumidores tem mais de 20 anos. Isso, aliado ao novo afluxo de fãs inspirados pelo filme de Batman, tornou os quadrinhos mais populares.

Havia também uma coisa chamada mercado de especulação. Ele era formado por pessoas que compravam vários exemplares da mesma edição de uma revista com a intenção de revendê-las mais tarde por um preço alto. Esse mercado iria ocupar um papel muito importante no futuro sucesso e queda da indústria.

Também em 1989, foi lançado Sandman # 01. Essa revista era diferente de qualquer outra. O personagem principal, Morfeus, também conhecido como Sandman, era um ser com poderes sobrenaturais. Ele não é realmente um herói mas sim uma divindade, o Deus do Mundo dos Sonhos. A revista era dirigida a leitores adultos e o orgulho da linha Vertigo da DC. O escritor Neil Gaiman ganhou vários prêmios por seu trabalho na revista até o seu cancelamento. Morfeus morreu no nº 69 e o título terminou em 1996 na edição 75. Isso aconteceu a pedido do escritor e não por causa de baixas vendas. Em 1990, um artista muito popular chamado Todd Mcfarlane conseguiu seu próprio título do Homem-Aranha, que ele iria desenhar e escrever. O resultado foi que Spider-Man # 01 se tornou a revista em quadrinhos mais vendida até aquela data. Outra razão pela qual ela vendeu tanto foram as várias e diferentes versões da capa. Muitos fãs compraram a mesma revista mais de uma vez para colecionar todas. No total foram 9 versões diferentes de Spider-Man # 01.

Em 1991, a Marvel repetiu esse sucesso em outra revista que quebrou recordes de venda e foi entregue a outro artista muito popular, Rob Liefeld. Essa revista era a X-Force # 01 e como a do Homem-Aranha, também obrigou os fãs comprarem vários exemplares do mesmo número por causa dos cards dos personagens.

Uma terceira revista da Marvel repetiu esse sucesso no mesmo ano: X-Men # 01, criada pelo escritor Chris Claremont e o desenhista Jim Lee. Mais uma vez um chamariz foi usado para que diferentes versões da mesma revista fossem compradas. Ela tinha cinco capas diferentes, 4 delas formando uma grande figura e uma quinta que trazia o desenho completo.Com cerca de 8 milhões de exemplares vendidos, é até hoje a revista mais vendida de todos os tempos.

Em 1992, o Super-Homem morreu. Bem, pelo menos durante algum tempo. Em Superman # 75 ele foi morto por um supervilão chamado Apocalypse. Esse evento criou um grande interesse por parte da mídia e fez com que várias pessoas através do mundo chorassem a morte do herói. Mais tarde, em Superman # 82, ele voltou.

Em Alpha Flight # 106, surgiu o primeiro super-herói gay: Estrela Polar, membro da equipe canadense chamada Tropa Alfa. A controvérsia gerada por isso encorajou a Marvel a fazer mais histórias como essa, como uma do Incrível Hulk onde um personagem coadjuvante descobriu ser HIV positivo.

A Era Image

Outro evento muito importante que aconteceu em 92 foi a formação da Image Comics. Essa companhia foi fundada por um grupo de artistas e escritores/artistas que haviam saído da Marvel descontentes por não terem liberdade criativa ou controle editorial sobre novos personagens. Esse grupo era composto por Todd McFarlane, Rob Liefeld, Jim Lee, Erik Larsen, Jim Valentino e Marc Silvestri. A nova companhia colocou a indústria em polvorosa com sua arte de altíssima qualidade.

Outra melhora para a indústria foi a separação de cores, que realça bastante o desenho. As revistas da Image são impressas em papel de alta qualidade, evitando que as revistas não se deteriorem com o tempo.

A primeira revista a ser lançada foi Youngblood # 01, de Rob Liefeld, sobre um grupo de heróis patrocinados pelo governo que se juntam para proteger o mundo. Embora a Image não seja bem aceita por alguns leitores mais antigos, a editora capturou a atenção de novos leitores e, como a Marvel antes dela, teve alguns de seus personagens transformados em desenhos animados e filmes poucos anos após seu lançamento.

Spawn # 01 é a revista independente mais vendida até hoje. Foi lançada em maio de 1992 e vendeu 1.7 milhão de cópias. A revista foi criada por Todd McFarlane e foi a primeira a vender mais do que as revistas das grandes editoras. Desde seu lançamento, Todd já criou sua própria empresa de brinquedos com o propósito de produzir bonecos de Spawn. A companhia, chamada McFarlane Toys, mudou toda a indústria dos brinquedos ao dar importância ao design dos bonecos. O objetivo de Todd é transformar Spawn num nome tão conhecido quanto o do Super-Homem ou do Homem-Aranha. Atualmente existem um desenho animado para adultos na HBO e um filme do Spawn para o cinema.

Em 1993, outras companhias começaram suas linhas de super-heróis. As duas principais são a Malibu e a Dark Horse. A Malibu publicou as revistas da Image quando ela estava começando e mais tarde foi comprada pela Marvel Comics. A Dark Horse tem vínculos com Hollywood que lhe permitiram produzir revistas baseadas em personagens como Robocop, Alien, Predador, Guerra nas Estrelas e Exterminador do Futuro. Ela também conseguiu levar alguns de seus super-heróis para o cinema, como o Máscara, Time Cop e Barb Wire.

Em 1994, a DC tentou resolver a confusão criada em Crise nas Infinitas Terras com outra mini-série chamada Zero Hora. Ao final dessa série, algumas linhas temporais previamente apagadas foram recriadas. Da mesma forma, uma continuidade mais coesa foi estabelecida. Mas ainda existem alguns problemas com o universo DC, principalmente com relação ao que aconteceu ou não no passado.

Já em 1996 a DC e a Marvel fizeram um grande encontro de personagens. Nele, os personagens das duas editoras lutaram uns com os outros para ver quem sairia vencedor. Alguns dos vencedores foram decididos por voto popular, tanto por correio como por e-mail, enquanto outros foram decididos pelos autores. Durante essa mini-série, tanto a Marvel quanto a DC lançaram uma série de edições únicas, envolvendo uma estranha mistura de dois personagens, um de cada editora. Um exemplo é Spider-Boy (a combinação do Homem-Aranha com o Superboy) e o Supersoldado (a combinação do Super-Homem com o Capitão América). Essa série foi chamada de Amálgama e durante uma semana nem a Marvel nem a DC lançaram revistas com personagens clássicos, somente os misturados.

Foi por volta dessa época que o mercado especulativo desapareceu. Como várias revistas novas eram superpromovidas pelas editoras, especuladores e fãs que compravam vários exemplares descobriram que a esperada procura por elas não iria acontecer. Da mesma forma, muitos fãs descobriram que elas não valiam o dinheiro gasto e acabaram abandonando as HQs.


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